não é consumo consciente só porque foi comprado em brechó.

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pra infelicidade de muitos, esse texto começa com uma cutucada já no título, mas a intenção é justamente te fazer questionar essa cartada fácil de que consumo consciente e brechó estão numa linha horizontal. será mesmo?

a principal questão sobre consumo consciente, não está diretamente relacionada com a origem da sua compra –  seja uma loja de departamento, bazar de igreja ou brechó online -, mas sim com o processo e a importância daquela compra. pra entender se o consumo é consciente, é preciso responder a algumas questões bem simples e que, com repetição contínua, fazem com que a gente compre melhor: por menos dinheiro e com mais inteligência.

são várias camadas. a mais superficial começa em você, o COMPRADOR. as perguntas são fáceis e você deve conseguir responder sem muita dificuldade:
  • qual a finalidade dessa roupa? vou usar em alguma ocasião especial, pra satisfazer uma necessidade momentânea, é uma peça que realmente preciso pro meu guarda-roupa?
  • por que estou fazendo essa compra? será que preciso de cinco camisetas, só porque cada uma delas custa R$3? estou comprando peças que conversam com minhas outras roupas? realisticamente, quantas vezes vou usar essas roupas, isoladamente ou em conjunto nos próximos seis meses?

aqui coloco seis meses como um período de exemplo, mas só você consegue delimitar de quanto em quanto tempo suas roupas merecem uma análise mais cuidadosa, tanto as que estão entrando no guarda-roupa, quanto as que já estão lá.

passando pra segunda camada, chegamos no comércio. as perguntas são um pouquinho mais densas, mas ainda assim fáceis de responder:
  • qual a qualidade dessa roupa? o tecido é fino, transparente, frágil? os acabamentos e costuras estão feitos direitinho? vai precisar de ajuste?
  • qual o tempo de validade dessa roupa? estou comprando um item básico ou uma tendência? daqui um ano ainda terei vontade de usar essa peça? ela funciona pro meu corpo e pro meu estilo a longo prazo?
  • há quanto tempo essa roupa existe? especificamente pra brechós e bazares, essa pergunta é crucial. na minha experiência, quanto mais antiga a peça, maior a qualidade. os tecidos e fibras são mais grossos, mais duros (o elastano só foi criado em 1959, então as peças não esticavam) e cedem menos. isso tudo faz com que a peça sofra menos com a ação do tempo, então mais ela vai durar.
por último e, particularmente acredito que, o mais importante, chegamos na indústria. aqui as perguntas são muito mais sobre ética do que sobre moda, e aí sim estamos falando sobre consumo consciente.
  • quem fez suas roupas? tem trabalho escravo envolvido nessa peça? ou ainda, a empresa remunera adequadamente as pessoas que produziram essas roupas?
  • minha compra incentiva um comércio limpo? existe alguma preocupação dessa empresa sobre o aspecto ambiental? essa empresa é transparente sobre o processo de produção das peças?
  • qual a postura dessa empresa no mercado? o quanto ela respeita tradições e não utiliza de “liberdade de criação” como desculpa para se apropriar de culturas e histórias e lucrar em cima disso?
  • quais são as ações de inclusão essa empresa performa no mercado? grade de tamanhos, quadro de funcionários, envolvimento em escândalos trabalhistas, casos de racismo, xenofobia, alusão à regimes fascistas, homofobia, gordofobia ou qualquer outro tipo de preconceito?

no fim das contas, comprar passa a ser um processo de análise complexo que serve como filtro de quem ainda merece seu dinheiro. você pode pensar que “não vai sobrar empresa nenhuma” e talvez não sobre, mesmo. será que nós precisamos que essas empresas continuem no mercado, então?

ou ainda pode achar que é uma atitude radical se auto-questionar tanto assim, e que isso vai te impedir de comprar o que você quer. até pode ser o que você quer, mas será que você precisa tanto assim?

será que você tem comprado consciente mesmo, ou só aliviado a sua consciência diante de uma nova tendência de mercado pra se livrar da culpa de consumir sem limites?

sobre o autor

Júlia Duarte

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