nossa, que caro.

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me ajuda numa conta? queria saber quanto você ganha. não precisa me contar, só descobre junto comigo. seu salário, dividido por 23, uma média de dias trabalhados no mês. pega esse resultado e divide por 8, que é a quantidade de horas em média que você trabalha por dia.

na maioria dos casos, o número é baixo. pouco significativo e analisando quanto vale sua hora, dá até pra pensar se você está sendo remunerado de acordo com o serviço que presta.

agora imagine que seu trabalho é costurar uma peça que vai ser vendida em uma grande rede de lojas de varejo. essa peça é uma camisa. normal, todo guarda-roupa tem um. pra fazer essa camisa, você demora mais ou menos 2h, considerando que você já tem experiência e leva os processos com rapidez. seu empregador te oferece R$3 por camisa finalizada – golas, punhos, botões, casas de botão etc e você não tem como discutir.

com base nos cálculos que a gente fez acima, o valor da sua hora vale R$1,50. essa camisa é vendida por R$70 pro consumidor final. mais ou menos vinte e três vezes a mais do que foi pago pra você fazer essa peça existir.

pra onde foi essa diferença? aqui a conta não fechou.

existe um abismo entre preço e valor,  então é bom ficar atento quando a gente for falar sobre como produtos de produção ética “são caros”. caro pra quem?

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Júlia Duarte

pencas comentários (4)

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  • São caros e elitistas sim. Meter a faca no preço final não é a única solução praquele patrão explorar menos seu empregado. Ler Karl Marx sobre trabalho e luta de classes ajuda a entender qual o real problema

    • Dani, parando pra pensar de maneira crua, a discussão sobre ética e remuneração na moda é elitista por si só. É uma discussão extremamente necessária, mas limitada a um grupo de pessoas a) com tempo, b) com disposição e c) bem ou mal, com dinheiro que sobra – não precisa ser rico, só ter dinheiro sobrando. A maioria das pessoas não pensa sobre isso quando entra em uma loja de departamento, que é o que cabe no orçamento e rotina delas.

      E concordo com você, preços finais abusivos não são a solução pra uma cadeia problemática, tanto é que nunca disse isso no texto, rs. Meu ponto não é defender lojas que continuam usando de má remuneração, com a capa da boa vontade. Dessas o Instagram tá cheio. Mas existe sim uma necessidade de reavaliação sobre o quanto a gente paga e acha “caro”, porque a conta simplesmente não fecha quando quem é mais prejudicado nessa cadeia, é justamente a base dela, quem produz.

      Eu não sei o quanto você conhece de mercado de moda enquanto produção real, o quanto CUSTA fazer uma peça hoje, do zero. Pra quem é pequeno e de fato se preocupa com remuneração justa, é BEM caro. E aí vamos ter que discordar quanto ao meter a faca, porque quem tá interessado em fazer comércio justo paga caro por isso, e consequentemente precisa cobrar por ele.

      Existem vários desdobramentos e colocar tudo como 8 ou 80 impede que um mercado extremamente problemático saia do lugar. A prova disso é onde estamos hoje.

      Obrigada pelo comentário!